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OLHO VIVO - SETEMBRO
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HQs no Recife: Criatividade e persistência em meio às dificuldades

Por Thiago César

Há quem pense que histórias em quadrinhos, os famosos HQs, são apenas os gibis de Maurício de Souza, as revistas dos heróis americanos ou os mangás japoneses, que marcaram a vida de muitas crianças e adolescentes brasileiros, mas esse conceito vai bem mais além. História em quadrinhos é uma forma de arte que conjuga texto e imagens com o objetivo de narrar histórias dos mais variados gêneros e estilos. São, em geral, publicadas no formato de revistas, livros ou em tiras em revistas e jornais.

Baseado nesse conceito, é possível afirmar que Recife é um celeiro de grandes quadrinistas pois conta com grandes nomes como Carlos Braga, Assis Leite, Otávio Cariello, Leonardo Santana, José Valci, Sandro Marcelo, entre outros que se tornaram famosos pelos seus desenhos que levam o nome do nosso Estado para o mundo. No entanto, falta incentivo para que os novos criadores de HQ possam produzir e publicar suas histórias, como conta Michelle Ramos, editora do site Zine Brasil, especializado na divulgação do trabalho dos quadrinistas pernambucanos e também de todo país. “Onde você buscar na internet você acha, porque eles estão produzindo constantemente. Está faltando incentivo para o quadrinho pernambucano ir em frente”, argumenta a roteirista.

Atualmente a produção de quadrinhos no Recife resume-se a exportação, já que muitos desenham e mandam seus trabalhos para agências. “A produção hoje tem se resumido aos trabalhos feitos para os Estados Unidos, pela Glass House Graphics (agência americana que contrata brasileiros para fazer quadrinhos no exterior) ou pela Comics. Quando alguma coisa acontece é sempre pela Acape (Associação de Cartunistas e Caricaturistas de Pernambuco). Mas fora isso, a produção está muito limitada a produzir e enviar. Aqui em Recife mesmo, está parado”, explica Wamberto Nicomedes, ilustrador gráfico e quadrinista que trabalha há 19 anos com HQ e que também faz parte dessa realidade.

Para superar a dificuldade da falta de patrocínio, os nossos quadrinistas estão encontrando na internet uma opção para expor seus trabalhos e, quem sabe, conseguir chamar a atenção de alguma editora que se interesse em investir. “Acho muito bacana ter a possibilidade de mostrar essa gama. Está se tornando um acervo. Eles estão querendo publicar e às vezes não tem o lado financeiro para ver a revista na mão, porque esse é o prazer do escritor, pegar o papel. Por isso a gente tem que se contentar com a internet. A publicação virtual é uma maravilha porque você pode fazer a cores e isso não vai te custar, já que uma gráfica cobra no mínimo 1500 reais para tirar mil cópias de uma revista”, conta Michelle.

A temática das histórias também cria uma identidade para os HQs feitos no Recife. Há personagens e histórias de todos os tipos: heróis, vilões, típicos brasileiros e pessoas comuns como conta Michelle. “Estou vendo que eles estão tentando fugir do super-herói e passando a escrever um pouco de tudo, é algo muito misto, porque eles gostam de mangá, de temática histórica, de heróis”. O tema Pernambuco também é uma das marcas das histórias, além de ser uma mistura de tudo que o quadrinista lê diariamente. “Me inspiro nas situações que vejo, na TV, nos livros. Por exemplo, tem uma história do meu personagem, o Brasileiro (o nome dele é José Brasileiro da Silva) que eu fiz baseado num fato que vi na TV e que me chocou. As coisas que eu vejo me influenciam muito”, exemplifica a roteirista.

Mas também há outros estilos de quadrinho, como o Underground, feito por Wamberto, que é mais filosófico e solto, desvinculado dessa política da venda. É um quadrinho feito para ser apreciado como obra de arte. “Meu estilo é muito erotizado e violento. É filosófico demais pra ser consumido pelo público comum. É um quadrinho pesado. A base dele é em ficção cientifica, mas é extremamente filantrópico, é muito mais introspecção, é autoral demais” define o ilustrador, que, além dos quadrinhos, trabalha com teatro e cinema e se inspira nas publicações brasileiras como revistas Heavy Metal, Animal e Papa Figo.

Fazer quadrinhos é um trabalho de amor, que consome demais quem se dedica a essa profissão, já que é preciso estar sempre atento às novidades. “Quem faz quadrinhos normalmente morre neles, porque puxa muito de você. É preciso ter uma entrega total. Você senta na prancheta às seis horas da manhã e sai de madrugada todos os dias, a semana inteira. Quem faz quadrinho faz porque ama”, diz Wamberto, que é reforçado por Michelle. “O quadrinhista se destaca pelo amor, tanto que quando você começa a fazer quadrinho você percebe que a sensação que você tem é da dificuldade. Você percebe que é difícil fazer porque não tem o apoio, então você só permanece porque você ama”, amplia.

Diferente do que falamos até agora, a revista Ragú, especializada em HQs pernambucanos, está se destacando devido à qualidade do material e aos roteiros impactantes que mostram outro universo das histórias em quadrinhos. Algumas mostram um forte cotidiano Nordestino, outras retratam o sofrimento dos mais humildes de forma brincalhona, mas mostrando sempre o dia-a-dia de Pernambuco. Ela é considerada por muitos a elite do quadrinho pernambucano.

Apesar da popularização dos quadrinhos, ainda há uma segmentação em meio aos leitores, que segundo Wamberto, é formado por um grupo que produz, estuda e admira HQs ou consumidores que compram o que vem do exterior, mas que ainda é uma minoria.

Há uma projeto denominado POPP- HQs PE (Pólo Ostensivo de Produção e Publicação de Histórias em Quadrinhos em Pernambuco) feito pelo CTP (Centro de Pesquisa Teatral do Recife) que pretende estimular a produção de HQs durante o ano todo. Com a idéia de produzir, publicar, difundir em Recife e daqui enviar para os outros Estados do Brasil. Para isso, já há eventos como o FIHQ (Festival Internacional de Humor e Quadrinhos), o 24horas de HQ e o 12horas de HQ. Mas é preciso que haja reconhecimento e que Recife feche um pouco os olhos para Batmam e Super-Homem e comece a enxergar a riqueza da cultura pernambucana nas páginas dos quadrinhos.

CARTUM

Além dos HQs, Recife também é reconhecida pela vasta gama de chargistas e cartunistas reconhecidos no Brasil e no mundo. Numa conversa informal com Samuca, chargista do Diário de Pernambuco, colaborador do jornal O Papa-Figo e da revista Ragú, cartunista premiado no 12°, 13° e 14° HQ Mix, graças aos livros A vida por uma linha e humor do fim do século, numa parceria com mais quatro cartunistas, e o projeto gráfico com o cordel A quase tragédia de Mané ou o bode que ia dando bode, descobrimos as dificuldades e vantagens do trabalho.

Por Augusto Bulhões

AGENDA CULTURAL - Há algum caminho direto para a formação do cartunista como profissional?
SAMUCA - Existem cursos esporádicos. Oficinas para vários segmentos, como caricaturas, HQ e pintura voltada para humor gráfico.

AC - Qual a sua formação?
SAMUCA - Eu comecei o curso de jornalismo na UNICAP, mas não terminei. Estou fazendo Design agora. Conheço alguns cartunistas que são médicos, mas a maioria é mesmo do curso de jornalismo.

AC - Quem decide o tema do cartum para a edição do jornal?
SAMUCA - A autoria é minha.

AC - Qual a diferença do cartum para a charge?
SAMUCA - A charge precisa ser de um assunto atual, como as olimpíadas em Pequim, por exemplo. A charge é uma crônica diária. Já o cartum não precisa estar preso a um fato atual. É um desenho poético, nascido da observação da vida, do cotidiano, mas que pode ter uma duração de cem anos, como uma idéia. Ele atravessa fronteiras.

AC - Você já trabalhou com HQ?
SAMUCA - Já trabalhei, mas muito pouco. Não é muito a minha praia.

AC - O que atraiu você para o lado do cartum e da charge?
SAMUCA - Eu sou irmão de um chargista, Cleristón (Folha de Pernambuco). Ele é 12 anos mais velho. Eu o via desenhar. Fora isso minha família tinha uma cultura de ler quadrinhos. Fantasma, Mandrake, Batman, Homem-Aranha, muito Tio Patinhas. Depois, na adolescência, conheci o Asterix, que pra mim é o melhor, com muita referência e humor mais refinado. São estórias em quadrinho com elementos de cartum. Crítica política nas estórias e são feitos a partir de muitas pesquisas. É o que eu busco na charge, no dia a dia.

AC - Antes da Associação dos Cartunistas De Pernambuco (Acape) era mais difícil pra um cartunista estipular um preço para o seu trabalho?
SAMUCA - O cartunista em si é um profissional isolado, solitário. Cada um tinha o seu preço. Mas o disparate era muito grande e as revistas ditavam preços. Alguns cartunistas têm seus preços, como Angeli, que já tem personagens consagrados. Há também no sindicato dos jornalistas uma tabela para o ilustrador.

AC - O cartum pernambucano tem alcançado alguma repercussão nacional?
SAMUCA - Com o início do festival de humor, sim. De lá pra cá Pernambuco começou a aparecer nesse meio. Vários cartunistas e quadrinistas já foram premiados aqui e fora do Estado. Pernambuco é considerado um dos pólos de cartum do Brasil, é uma referência.

Conheça o Zine Brasil: http://zinebrasil.googlepages.com/
Mais trabalhos de Wamberto Nicomedes no blog: http://hdartbook.blogspot.com/

01 a 30/09/2008

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