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CONEXÃO - GENIVALDO ANDRADE

Texto: Gianfrancesco Mello, Marcelo Montanini e Morgann Jezequel
Fotos: Marcelo Montanini

Profissão: luthier

Trabalha com a construção e manutenção de instrumentos musicais, além de possuir um ofício delicado, artesanal e que requer muita dedicação. Esse é o luthier, profissional que é responsável por construir, manter e afinar instrumentos e, portanto, deve entender bem das especificidades de cada um deles. Inicialmente, a lutheria era a arte que trabalhava apenas com instrumentos de corda como o violão, o violino ou o baixo, mas o uso se generalizou para denominar todos os profissionais que trabalham com todos os instrumentos, seja de corda, sopro ou percussão. Para ser um luthier, o profissional deve entender de música, da sua história e, principalmente, dos instrumentos e suas necessidades e especificidades, além de possuir responsabilidade, metodologia, dinamismo, capacidade de organização, sensibilidade musical, facilidade de desenhar, detalhismo e por fim, criatividade.

Nesta profissão, destaca-se o luthier Genivaldo Andrade que, desde 1966, constrói e restaura instrumentos de corda com alta qualidade e precisão, exportando-os para diversos países. “Sou o único velho do mundo que tem 196 baixos diferentes, inclusive o de 16 cordas”, enfatiza. No Recife, talvez ninguém entenda mais de instrumentos de corda do que Genivaldo. “Há uma diferença entre ser luthier e ser marceneiro, apesar de tudo que aconteceu na minha vida, eu ainda não me considero um luthier, nunca houve uma reclamação, mas a diferença existe. Tem gente que considera consertar instrumento de corda como se estivesse consertando móveis de alto luxo, mas na verdade não é assim.”

Andrade, como é mais conhecido, em 1990, participou do Festival Internacional de Luthier em São Paulo, concorreu com 19 países e ficou em terceiro lugar, foi o maior reconhecimento de uma carreira que começou por causa da necessidade. “Quando eu tinha 12 anos, pedi para meu pai fazer um violão para mim. Ele dizia que não iria fazer, porque era coisa de marginal. Eu insisti tanto, que ele fez. Lembro que meu pai trouxe o violão naquela alegria e quando eu olhei o instrumento disse: eu fazia melhor. Levei uma pisa tão grande por isso. Foi neste momento que descobri talento pra coisa”, conta. Ele explica ainda que, em 66, quando era jovem, o que ocorreu também foi a necessidade de ter um violão para aproveitar a influência dos Beatles e de Elvis Presley. “Eu não tinha dinheiro para comprar um violão ou instrumento novo, por isso, eu comprava aqueles instrumentos velhos e os transformava em novos.”

Hoje, ele tem uma marca própria D’Cordas, localizado no bairro do Bongi, Zona Oeste do Recife, que também veio por acaso. “Eu fui juntando coisas velhas como tarraxas, encordoamentos velhos e de repente, eu fiquei com quase um metro de cordas velhas e o pessoal chegava dizendo: mas rapaz, dê cordas, dê cordas, dá essas cordas. Depois disso, ficou o nome D´Cordas.” Andrade já perdeu as contas de quantos instrumentos de cordas ele fabricou ou consertou. Hoje, fabrica instrumentos para uma loja em São Paulo, que distribui para o Rio de Janeiro, Bahia e Fortaleza (CE). Mesmo com todo esse currículo, o terceiro melhor luthier do mundo ainda acha que não sabe nada. “Eu sou o terceiro menos ruim do mundo por causa do Christian German, que apresentou meus instrumentos no Japão, mas o segredo dessa profissão é o cotidiano mesmo. Meu maior orgulho é ter mais de 40 anos servindo Pernambuco em todo o lugar do mundo.”

Um luthier também pode ser apaixonado por outros instrumentos. É o caso de Abílio Sobral de Lima, que começou a tocar instrumentos percussivos com 12 anos de idade e logo depois, a produzir os seus próprios instrumentos com latas, plásticos e borrachas. As primeiras baterias foram criadas aos 17 anos e logo foram comercializadas. Percussionista e baterista, dono de uma loja de instrumentos de percussão em Casa Amarela, Abílio tem também um conhecimento dos instrumentos de corda, graças aos cursos especializados que fez em outros estados brasileiros. O luthier encontra os defeitos, conserta, mas não toca. “Passei uma época confeccionando instrumentos de cordas, mas hoje está difícil por causa dos instrumentos industrializados. As pessoas ultimamente só procuram o profissional de lutheria para realizar alguns ajustes nos instrumentos.”

A ideia central do trabalho de Abílio é produzir instrumentos para suprir as necessidades das atividades musicais. Isso porque ele desenvolve um trabalho social voltado à cultura e sempre repassa suas técnicas para que outras pessoas tenham se profissionalizem. Trata-se do Espaço Coletivo da Prefeitura, projeto de 20 anos que agrega músicos e artesãos. Abílio já trabalhou com o luthier, Damião Rodrigues, do Rio Grande do Norte, além de um pessoal de João Pessoa que desenvolvem trabalhos para recuperar instrumentos gastos pelo tempo.

Carente em especialização, mas não em profissionais

Os luthiers surgem por meio do ensino informal de um mestre ao seu aprendiz. E, diga-se que, na atualidade, a formação segue seus preceitos, pois no Estado, apesar de possuir bons profissionais, não há cursos profissionalizantes. Em sua maioria, os profissionais que desenvolvem estes trabalhos são músicos ou estão diretamente ligados a matéria prima: a madeira. Muitos acabam se especializando em outros estados ou até mesmo através de conversas ou trocas de experiências com outros profissionais do ramo. Assim como fez o luthier Abílio Sobral de Lima, que viajou à João Pessoa para se especializar na profissão.

E se não é imprescindível a formação acadêmica deste profissional, o aspirante, além de aprender com um bom mestre, deve possuir algumas características e conhecimentos específicos como estudo detalhado do instrumento: conhecimento das necessidades dos clientes a serem atendidas; escolher os melhores materiais para a fabricação do instrumento, principalmente, a matéria prima; noções de música; além de todo processo de manufatura, retoques e afinação da sua criação. “Muitos pensam que consertar é o mesmo que criar e não é bem assim”, afirma o luthier, Genivaldo Andrade, que enxerga o mercado como carente e sem perspectivas.

Entretanto, o mercado de trabalho está intimamente ligado ao cenário musical local. E há duas opções de caminho a escolher: uma é ser autônomo e, neste caso, a rede de contatos também influencia e a outra opção é trabalhar no setor privado (lojas ou fábricas), assim como fez Andrade, que trabalhou na fábrica da Del Vecchio, em São Paulo. “Trabalhei lá por dois anos, comecei como pião, aprendiz e depois que aprendi, voltei.”

D'Cordas
Rua Pio Muniz de Farias, 85, Bongi
1ª rua após a Celpe/Bongi pela Av. Manoel Gonçalves da Luz
Fone: (81) 3227 0975 / 8714 8567
luthiergandrade@yahoo.com.br
gandrade1950@hotmail.com
www.dcordas.com

Espaço Coletivo da Prefeitura
Avenida Norte, 5600, Casa Amarela
Fone: (81) 3441 4542

01 a 31/07/2010
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