AFOXÉ - ALGUMA COISA ACONTECE


Foto: Flávia Lacerda

Está na língua iorubá a fórmula verbal para se entender o significado da palavra afoxé:

a, prefixo nominal;
fo, verbo- pronunciar, dizer;
, realizar-se, verificar-se

A fórmula revela-se na tradução literal de Antônio Risério, segundo a qual afoxé quer dizer: a enunciação que faz (alguma coisa) acontecer. Risério cita Olabiyi Yai, para quem afoxé, "em iorubá, significa, pois, encantamento, palavra eficaz, operante". Propõe Risério uma tradução mais poética: afoxé seria, então: "a fala que faz".


De forma diversa, o musicólogo e maestro Guerra Peixe, no seu clássico "Maracatus do Recife", assinala que o vocábulo deriva do sudanês ÀFOHSHEH e lembra que se trata de um "remoto designativo" do maracatu. Relata Guerra Peixe que ouviu, em um maracatu recifense, referências à expressão "Afoxé de África" e que, na Bahia, o vocábulo indica a espécie de Maracatu salvadorense e nomeava, como explica Arthur Ramos, "as festas profanas dos terreiros baianos". Garante Guerra Peixe que "a palavra apareceu no Recife, certamente, em virtude da influência religiosa que os sudaneses exerceram sobre os bantos." Distingue ele os termos Nação, designativo do grupo administrado por governador negro, e afoxé o afoxé de África, a festa profano-religiosa efetuada pela nação no momento oportuno. A expressão afoxé teve uso restrito, apenas entre os seus participantes, já que os autores dedicados ao estudo do maracatu não a registram.

Katarina Real se refere a um dos seus "informantes mais idosos sobre o maracatu, Seu Veludinho", como alguém que "se lembra ter ouvido frequentemente no Recife, no passado, a palavra afoxé com referência aos maracatus". Ele insiste - diz Katarina - que o nome maracatu "foi invenção dos homens grandes ... maracatu nem tinha nome de maracatu. O nome era Nação. Na palavra africana, é Afoxé de África".

Cantigas para todos


INSTRUMENT0S

Afoxé (ou Agbê) - Cabaça coberta por uma rede formada de sementes ou contas. O agbê é percutido agitando-se a rede, que fricciona no corpo da cabaça.
Atabaques - São basicamente de três tipos, com três tamanhos diferentes que em conjunto traduzem o som do ijexá, tocado no afoxé atualmente.
Agogô - Formado por duas campânulas de metal, com sonoridades diferentes. O agogô é quem dita o ritmo aos demais instrumentos.

OS GRUPOS DE AFOXÉ SE ORGANIZAM E CRESCEM. Foto: Flávia Lacerda


VOCAL

As melodias entoadas nos cortejos dos afoxés, afirma Raul Lody - são praticamente as mesmas cantigas ou orôs entoados nos terreiros afro-brasileiros que seguem a linha jexá. E acrescenta: "os orôs são puxados em solo e em seguida repetidos por todos, inclusive pelos instrumentistas. Geralmente quem realiza o solo é uma pessoa de status elevado dentro do grupo". Afoxé, longe de ser, como muita gente imagina, apenas um bloco carnavalesco, tem profunda vinculação com as manifestações religiosas dos terreiros de candomblé, "já que seus praticantes estão fundamentalmente ligados ao culto dos orixás", como declara o antropólogo Raul Lody. Vem daí o fato de chamar-se o afoxé, muitas vezes, de "Candomblé de rua". Inclusive por homenagear um orixá, geralmente, o orixá da casa de candomblé a que pertence. Em Pernambuco, o afoxé ressurge com o Movimento Negro Unificado no final da década de 70, como uma das formas de se fazer chegar à maioria da população, o debate sobre consciência negra e liberdade, através da música.

Atualmente existem quatro grupos de afoxé em avançado estágio de organização, são eles: O Araodé, Alafin Oyó, e o Oxum Panda, todos na cidade de Olinda. No Recife, Afoxé Ilê de Egbá, com sede no Alto José do Pinho.