meu bairro

foto: Ananda Urias
Poço da Panela

MEU BAIRRO... MORO AQUI

Em Meu Bairro... Moro Aqui, você, leitor, conhecerá todo mês um bairro da nossa cidade, sempre guiado por um morador, que nos mostra a história, os personagens, o clima e os lugares especiais que fazem de cada recanto do Recife um lugar único.

De uma panela de barro colocada dentro do poço onde todos das cercanias iam buscar água potável, nasceu o primeiro bairro que a Agenda Cultural do Recife apresenta nesta nova seção.

De clima bucólico, ruas com calçamento de pedra e muitas árvores que fazem a temperatura ser muito mais amena do que no resto da cidade, o ambiente deste bairro é diferenciado. As pessoas ainda se conhecem, se reúnem em festas de São João e fim de ano e ficam nas calçadas cumprimentando quem passa.

O Poço da Panela surgiu no século XVIII como uma povoação modesta. Após uma febre epidêmica que assolou o Recife, espalhou-se a notícia de que os banhos naquele trecho do Rio Capibaribe eram um remédio milagroso. A fama fez com que o local passasse a ser frequentado por ricos, que construíram ali casas de veraneio. Logo, as casas de veraneio viraram casarões para onde se mudaram vários estrangeiros, principalmente ingleses.

A bela fachada azul e o jardim na entrada da casa iniciam plasticamente nossa viagem. “Não se vêm mais os jardins, hoje os muros são muito altos”, nossa guia sabe o que é beleza e conhece muito bem o Poço da Panela. Luzilá Gonçalves Ferreira, escritora, mora há cerca de 40 anos no bairro, para onde se mudou logo que casou e criou seus filhos.

Ela conta que a comprou muito barato por que tinha havido uma enchente e, ao ver entrar cerca de quarenta centímetros de água em casa, o antigo dono praticamente a deu de graça. “Depois que nos mudamos houve uma cheia ainda maior e a água chegou a um metro e sessenta em casa, mas eu nunca saí” e complementa: “Não tenho a intenção de sair daqui nunca”.

Luzilá, cumprimentando vários moradores pelo nome enquanto passávamos, nos guiou em um passeio pelo Poço da Panela em que descobrimos um pouco da magia do lugar. O primeiro destino nos leva ao futuro: antes ateliê de Cavanni Rosas, a antiga casa (como muitas daqui) está sendo reformada para se transformar no Poço das Artes, que terá oficinas diversas para crianças, ensinando várias formas de arte. A arte parece ser atraída pelo Poço, ou pelo menos os artistas. Muitos moram ou moraram no bairro, e os ateliês há muito são parte da paisagem.

Seguimos nosso passeio até o Largo do Poço, lugar mais representativo do bairro. É lá que se encontram três lugares importantes: a Igreja de Nossa Senhora da Saúde, fruto de uma promessa como muitas outras; o terreno onde ficava a casa da família Mariano Carneiro da Cunha, do famoso poeta Olegário Mariano. Os pais de Olegário – José Mariano Carneiro da Cunha e Dona Olegarinha – foram dos mais atuantes abolicionistas do Estado. Conta-se que, no final do século XIX, eles escondiam escravos fugidos e alforriados em barcos e os encaminhavam ao Ceará, então único Estado brasileiro que já havia abolido a escravidão. Agora há uma estátua feita em homenagem a eles no local.

É no Largo também que fica a venda de Seu Vital, referência no bairro do Poço da Panela. Seu Vital mora desde 1964 no bairro e há 38 anos é dono do comércio que ainda é no mesmo lugar. O local é ponto de encontro dos moradores daqui e seu dono é uma das maiores figuras do Poço.

Continuamos andando e apreciando o casario centenário tão característico do bairro e chegamos num lugar que parece impossível de ser encontrado no meio da metrópole. Na beira do rio, a paisagem é de sítio, com ruas de terra, mata fechada, pássaros, silêncio. Mas o clima bucólico é interrompido por um aviso: ali será construído um prédio espigão. Boa parte do bairro é área de preservação, sendo proibida a construção de prédios. Algumas edificações novas mantêm as casas antigas em pé e as reformam por conta de uma lei que impede a demolição de casas centenárias. Mesmo assim o contraste tem ficado mais freqüente, a pressão imobiliária está rondando o Poço. “Se continuar essa verticalização, não vejo um futuro bom pro bairro” alerta Luzilá Gonçalves Ferreira.

Viajamos pela Estrada Real do Poço, principal via da localidade, tombada pelo Patrimônio Histórico por conta da riqueza arquitetônica das casas e sobrados do século XIX.

Nosso passeio termina confortavelmente na Praça do Nordeste, adornada com árvores e flores e com bancos providenciais. Ao fundo, belas construções compõem a paisagem e deixam marcadas na nossa memória as imagens típicas do Poço da Panela.

Fontes: Freyre, Gilberto. Guia prático, histórico e sentimental da cidade do Recife. 4. ed. ilustrada. Livraria José Olympio Editora (dez. 1968).
www.pe-az.com.br; www.overmundo.com.br


Mal-assombro
Uma das coisas mais interessantes do bairro é a fama das casas mal-assombradas. Luzilá Gonçalves Ferreira conta que duas empregadas que trabalharam na sua casa em épocas diferentes e sem se conhecer viram a mesma assombração em um dos quartos: “Uma delas, vinda do interior, acordou uma vez de madrugada gritando ‘Dona Luzilá! Tem uma mulher com a boca cheia de sangue sentada na minha cama!’ Eu disse para deixar disso, que não existe, mas não teve jeito, ela não agüentou e foi embora. Tempos depois arranjei outra e, claro, não contei nada, pois não queria que ela ficasse com medo. Um dia ela me disse ‘Tem uma mulher com a boca cheia de sangue no meu quarto!’”. Luzilá diz que nunca viu nada, mas até queria, e explica que as casas são muito antigas e com certeza morreu muita gente nelas, sendo naturais as histórias de fantasma.

Outra lenda do Poço da Panela é o suposto túnel que ligava a Igreja ao Convento das Carmelitas. O convento não existe mais, e alguns moradores relatam ter encontrado buracos enormes enquanto reformavam suas casas, tampando-os, com medo de que comprometessem a estrutura da construção. Lendas como estas dão à vizinhança um sabor ainda maior e enriquecem o imaginário da cidade.

Por Felipe Mendes

01 a 31/10/2007

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