meu bairro
HIPÓDROMO

Meu bairro – Março 2011

HIPÓDROMO
Por vezes, procuramos por acontecimentos grandiosos e lugares imponentes para contarmos nossa história. Essa procura nos leva a feitos heróicos, grandes personalidades, fatos incríveis, mas também nos afasta daquilo que realmente constrói um povo: sua vivência diária, a escolha de cada uma das pessoas “anônimas” que o formam, sua relação com os outros e com o local onde moram. Se quando vistos isoladamente esses acontecimentos parecem banais e cotidianos, quando analisados em perspectiva e com atenção eles revelam a verdadeira matéria-prima da teia social que cria a história e a identidade de um povo. É em busca dessa identidade que a Agenda Cultural do Recife segue, em sua série Meu Bairro...Moro Aqui , visitando e ajudando a desvendar cada um dos bairros da nossa cidade, sempre guiada por um morador, que nos mostra o local onde mora a partir da visão de quem também constrói esse lugar. O bairro que iremos conhecer nessa edição carrega, já em seu nome, um pedaço da sua história. Seu território deriva de uma grande construção que houve aqui: o Hipódromo de Campo Grande, que abrigou provas de turfe no final do século XIX e começo do século XX, época em que o esporte era muito apreciado no Recife. Quem nos mostra o bairro em que nasceu e onde mora até hoje é Eduardo Araújo, fundador do grupo Guerreiros do Passo e presidente da troça carnavalesca O Indecente. Eduardo já foi aluno da Escola Municipal de Frevo, onde teve aulas com o mestre Nascimento do Passo e conheceu as pessoas que depois formariam com ele o Guerreiros do Passo: Gil Silva, Valdemiro Neto e Lucélia Albuquerque. Eles mantêm a sistemática de Nascimento do Passo nas aulas que ministram e continuam juntos até hoje. O grupo também edita o jornal O Passo que, em sua última edição traz uma reportagem sobre o bairro do Hipódromo. Você pode acessar seu conteúdo em www.opassojornal.blogspot.com. Nosso passeio se inicia na Praça Tertuliano Feitosa, parada obrigatória para quem quer conhecer o Hipódromo. Ampla e arborizada, a praça tem um papel fundamental na vida do bairro. Caminhando, avistamos uma palhoça e, debaixo da sombra dela, pessoas jogando dominó. As muitas árvores frondosas garantem, mais do que sua que sombra, um ambiente agradável. Moradores relaxam nos bancos, crianças brincam no parquinho, jovens namoram ou passam o tempo na “Praça do Hipódromo”. Em frente à praça fica a casa do mais longevo vereador da história do Recife, Liberato Costa Júnior. Suas sucessivas eleições para a câmara municipal que o deixaram cerca de quarenta anos em exercício contínuo do mandato são, em grande parte, fruto da sua identificação com o bairro em que mora. Há ainda um posto policial e as escolas Clóvis Bevilaqua e Gilberto Amado. O Hipódromo já abrigou outras figuras ilustres, como o poeta Ascenso Ferreira, que nosso guia Eduardo lembra encontrar nas ruas do Hipódromo quando era criança, e é homenageado dando o nome a uma das ruas do bairro. O grande equipamento de convivência e lazer também abriga a Academia da Cidade, que traz atividades para os moradores, melhorando sua qualidade de vida. Também encontramos, enquanto andamos, um lago de desenho sinuoso e jardins, que compõem uma bela paisagem. Alcançamos uma área descampada, e Eduardo aponta ser esse o local onde acontecem as aulas de dança que o Guerreiros do Passo oferece gratuitamente, as quartas e sábados. Cerca de trinta pessoas se reúnem para aprender a magia do passo dos ritmos pernambucanos. “Temos até uma aluna estrangeira”, afirma nosso guia. Esse trabalho, realizado há 5 anos, resultou na criação de um grupo de dança, que se apresenta com elenco de 12 a 15 passistas, entre crianças, jovens e adultos. Eduardo, ciente da história do seu bairro, conta que o primeiro passo para a atual estrutura urbana do Hipódromo foi dado na década e 1930, quando a Prefeitura do Recife fez um projeto de ocupação do bairro, construindo a praça e a escola. Na década seguinte, o Governo do Estado construiu uma vila para funcionários do IPSEP, que passou a ser conhecida como “Vila do Hipódromo”. A Praça Tertuliano Feitosa ocupa parte do terreno em que ficava a famosa pista de corrida de cavalos que deu nome ao bairro, o Hipódromo do Campo Grande, construído em 1888. O Hipódromo, apesar de uma vida útil relativamente curta, deixou uma marca na vivência do bairro, evidenciada em seu nome. Mas a origem a da ocupação deste território é anterior: aqui ficava o sítio de Antônio Feitosa, um dos líderes da Revolução Praieira, ocorrida em 1848, que abrigava uma grande cacimba para onde acorriam inúmeras pessoas em busca de água. Eduardo diz que o sítio serviu de ponto de encontro para os revoltosos, que usavam a cacimba como pretexto para se reunir. Mais tarde, toda a área passou a ser chamada de Localidade do Feitosa, que chegou até a abrigar uma estação do trem maxambomba. Caminhando, chegamos à Rua Largo do Feitosa, onde encontramos Cícero Alexandre Xavier, que morou de 1957 a 1984 no Hipódromo e até hoje ainda trabalha aqui. Ele nos aponta a rua em que ficava a cacimba, que ainda existia quando chegou aqui. Entramos na Rua Francisco Rolim. Quem passa hoje por aqui não vê sinal do “cacimbão” e pode nem imaginar riqueza histórica que está sob seus pés, aterrada pelo desenvolvimento urbano do Recife, centro atualmente de uma região metropolitana composta por mais treze municípios, que são casa para cerca de três milhões e meio de pessoas. Encontramos Dona Eunice Ferreira, moradora da rua desde 1964. Ela nos conta que, na cacimba, morava uma enorme tartaruga, que foi retirada antes do seu aterramento. “Essa área pode ser considerada o berço do bairro do Hipódromo”, afirma Eduardo Araújo. O Sítio de Antônio Feitosa, por sua vez, ficava em terras antes pertencentes ao Engenho de Belém. Até hoje há aqui a Estrada de Belém, importante via que serve de limite leste do Hipódromo. Movimentada, a Estrada abriga restaurantes, galerias, bares e mercados, entre diferentes tipos de comércio. Na esquina com a Rua Fonseca Oliveira encontramos uma galeria comercial bastante movimentada.
Vamos à Rua Francisco Berenguer, em que mora nosso guia Eduardo. Sua casa também é a sede da troça O Indecente e, entrando, encontramos seu pai, conhecido como Seu Peninha. Ele diz que, quando chegou aqui, os moradores nem mesmo chamavam o local de Hipódromo.Conversando, se diverte ao contara história do “Negão de Sebo”, um criminoso que andaria todo nu e melado de óleo. “Ninguém conseguia segurá-lo porque era muito
escorregadio”, diz Seu Peninha. Degustando uma acerola do pé carregado que há na casa, nos deliciamos também com a história sendo feita nas conversas ao pé de calçada. E nos encontros possíveis com a vida da nossa cidade, quando estamos dispostos a conhecê-la. Por todo lugar que andamos, encontramos um ambiente tranqüilo. Praticamente não há prédios no
Hipódromo, as ruas são calçadas e a predominância de casas interfere também na quantidade de carros na rua, que é pequena. Encontramos
muitas pessoas conversando em frente a suas casas, passeando com cachorros de estimação, limpando sua calçada, vivenciando seu espaço.
A qualidade de vida dos moradores do Recife depende também do uso
consciente da cidade pelos seus próprios moradores.

O Frevo
Nosso guia Eduardo Araújo diz que, no início do século XX, havia muitas agremiações carnavalescas na área. Ressaltando a importância histórica do bairro onde mora, orgulha-se de poder dizer que o termo “frevo” – mais pernambucano dos ritmos – nasceu no Hipódromo. A primeira publicação conhecida da palavra aconteceu em 9 de fevereiro 1907, no Jornal Pequeno, em um anúncio da programação do Clube Empalhadores do Feitosa, na seção do jornalista Oswaldo Oliveira. Avisava-se que, entre outras músicas, seria executada uma chamada O Frevo. Esse momento condensa uma tradição começada anos antes, com a criação desse ritmo que, na época, ainda descobria seu nome. Hoje, no dia 9 de fevereiro, comemora-se com muita música e muito passo o nascimento desta musicalidade que resume o carnaval.

01 a 31/03/2011
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