meu bairro
Meu bairro... moro aqui ...Tamarineira

Por Raquel Freitas
Fotos Vitor Chaplin

Inspirar-se no Recife e nos seus bairros para compor uma música, escrever um poema ou até para roteirizar um filme é sem dúvida uma das características mais marcantes e, por que não, singular dos artistas pernambucanos. Como esquecer a Rua da União do poeta Manuel Bandeira, presente no poema Evocação do Recife? Da música de Chico Science alertando-nos sobre a importância do ecossistema mais rico do planeta, que ainda resiste à poluição do Capibaribe? E do filme Enjaulado (1997), de Kleber Mendonça Filho, que explorou o atual modelo de segurança presente nas fachadas gradeadas no bairro onde mora? Não há dúvidas de que a arquitetura sempre esteve presente nas discussões sobre a cidade e seus bairros, uns timidamente, outros mais exaltados, como é o caso de Gilberto Freyre na obra Casa-grande & senzala, em que explica metaforicamente utilizando-se da simbologia da casa-grande e da senzala) a formação sociocultural brasileira. Na verdade, esse sempre foi o cerne inquietante daqueles que pretendem fazer do ambiente onde vivem um local não só para morar, mas mais especialmente para se observar e refletir.
É com esse intuito que a Agenda Cultural do Recife visita este mês o bairro da Tamarineira. Dessa vez, quem nos conduz nesse passeio é a poetisa Bernadete Bruto. Assim como os demais, Bernadete também foi flagrada observando e registrando o lugar-comum, cujo poema intitulado Vazio da Cidade está presente no seu segundo livro O coração que canta: “[...] esse comboio de carros, seguindo perfilado, o mesmo itinerário, diário, pela cidade, cada um seguindo seu destino [...]”. Esse registro quase fotográfico é uma descrição que sintetiza o momento pelo qual vários bairros da cidade estão passando com relação ao trânsito.
Mas, longe dessa conturbação, o bairro da Tamarineira consegue ser um excedente em meio à confusão urbana. Isso porque a sua área, localizada a Noroeste da cidade, é rodeada por árvores centenárias e plantas coloridas. “Olhem essa árvore, ela é centenária e foi tombada pelo Patrimônio Histórico”, afirma a poetisa. A árvore à qual ela se refere é conhecida popularmente por Barriguda e se encontra na Rua Sebastião Alves, em frente ao Edifício Príncipe de Orange.
Assim como nos demais bairros, a Tamarineira se deixa confundir por entre as árvores e pelos arranha-céus. Localizado entre os bairros de Parnamirim, Mangabeira, Jaqueira e Rosarinho, a Tamarineira – “designação comum às árvores do gênero Tamarindus, da família das leguminosas” (Houaiss eletrônico, 2009) e cujo fruto é conhecido pelo nome de tamarindo –,apesar de ser originária das savanas africanas, é bastante cultivada no Brasil, mas principalmente nas Índias. Segundo Bernadete, a origem do bairro se deu com um loteamento iniciado em 1982 na localidade conhecida como Sítio da Tamarineira. Com uma área de aproximadamente de 100,9 hectares, o sítio foi desapropriado para dar lugar a um dos maiores complexos psiquiátricos do País, o Hospital Ulysses Pernambucano, ou para quem preferir: o Hospital da Tamarineira. “Ele já teve vários nomes, entre eles, Casa da Misericórdia, e, agora, recebe o nome de um dos médicos psiquiátricos mais conceituados do Estado, Ulysses Pernambucano”, reafirma a guia. Atualmente, além do Hospital Ulysses Pernambucano, funcionam também no local o Hospital Infantil Helena Moura e o Centro de Tratamento e Prevenção de Alcoolismo (CPTRA).
Conhecido pela existência do Hospital da Tamarineira naquela localidade, o bairro passou a ser sinônimo de tratamento psiquiátrico e, por consequência, da própria doença psiquiátrica. Para quem nunca viu o outro lado do Hospital da Tamarineira, fica difícil saber a realidade dos que vivem dentro do prédio público, que por sinal vai de encontro a todos os estereótipos relacionados ao local. “O hospital vem acompanhando as mudanças. Ele é pioneiro na implantação de tratamentos que promovem a interação dos pacientes com a sociedade”, garante a diretora do hospital, Benvinda Magalhães.
A gestora do hospital diz que os eventos são fundamentais para a ressocialização dos pacientes. “Fazemos eventos culturais e fazemos também ações com vários artistas. Deixamos o paciente em contato com as pessoas”, enfatiza. Talvez pelo espaço já se enquadrar numa certa paisagem habitual, muitos moradores passam pelo local sem dar a devida relevância ao lugar, pois pouco se sabe sobre a trajetória histórica de um dos centros psiquiátricos mais importantes. Logo, a sua preservação é fundamental tanto para a saúde pública quanto para salvaguardar a memória biográfica do estudo da psiquiatria no Estado. “Quando surgiu a ideia, ou melhor, o projeto para construir no espaço da Tamarineira um parque, percebemos que as pessoas têm uma ligação muito forte com o equipamento. É o reconhecimento do excelente serviço prestado à população e, principalmente, do valor histórico que o prédio tem para a história do bairro”, pontua. Ainda segundo Benvinda, há uma preocupação muito grande com a saúde urbana do bairro. “Na realidade, os moradores estavam preocupados também com o desmatamento e com o trânsito que certamente aumentariam no local”, afirma.
Na luta pela preservação do espaço público há muitos militantes. Alguns convergem na teoria, outros encontram na prática a solução para a luta em favor de um bem público. O grupo chamado Amigos da Tamarineira, que tem à frente a historiadora Virgínia Pernambucano, é ativista veemente na luta pela preservação do espaço como um bem público. “A nossa luta consiste em preservar o espaço, continuar com os serviços que são prestados à população e ampliar o uso do espaço para as pessoas que desejem visitar a Tamarineira”, afirma a historiadora. Estender o número de parques públicos pode ser uma boa alternativa para se preservar o mínimo das áreas de mata, ainda que minimamente presente, existentes nesta extensão territorial. “Temos que preservar esse pulmão que está no meio da cidade”, garante. E o mais importante: deve haver certa conscientização para a preservação do espaço, uma vez que a história do povoamento no bairro se deu em razão da instalação do hospital naquela localidade. “A Santa Casa vendeu alguns terrenos que faziam parte do hospital e foi assim que surgiram os primeiros indícios de moradia”, ressalta Virginia. Um dos terrenos dá lugar atualmente ao Colégio Rosa Gattorno. Fundado em 1950, o objetivo era oferecer educação gratuita a moças carentes da comunidade.
Caminhando pelo bairro, percebemos que aos poucos tudo vai se transformando. Casas que antes eram idealizadas por um conceito vão perdendo a sua essência por conta das novas construções. O exemplo disso é a Vila dos Comerciários. Criada no final da década de 1930 e início na década de 1940, a vila foi arquitetada por um inglês chamado Ebenezer Howard. “Se você observar, vai ver que as casas têm um padrão. Elas foram idealizadas num conceito de cidade-jardim”, sintetiza. Foram construídas na época cerca de 311 residências. “Olha, é tudo tão misturado, o bairro é tão pequeno que pra lá já é Aflitos”, comenta a guia a respeito da homogeneização dos bairros vizinhos.
Quem nunca ouviu falar no jargão Precinho Zé Araújo? A loja que sempre foi um endereço comercial ganha outro olhar. Com 118 anos de história, o espaço é um dos mais tradicionais locais de venda de tecido da cidade. Para Dona Tereza Melo, o local sempre foi uma ótima alternativa. “Eu moro aqui na Tamarineira, fica bem pertinho da minha casa, então tudo que quero comprar em relação a tecidos e coisas de casa compro aqui, e outra: este espaço já é um cartão postal do bairro”, garante.
Para quem quer descansar no final da tarde, tem a alternativa de frequentar a Praça Fleming. Idealizada em 1954 pelo arquiteto carioca Acácio Borjo, as casas que ficam na redondeza foram construídas na década de 1940. “A experiência foi para construir casas habitacionais, num estilo primeiro andar. Era bem interessante isso daqui. Essas duas são originais [aponta], as demais foram desapropriadas para dar espaço às construções de prédios”, assegura. A praça, que hoje é reduto para as crianças, foi adotada pelos moradores dos prédios circunvizinhos. “São os moradores que fazem a manutenção. São eles também que plantam e trazem até vasos de caqueras pra cá”, pontua.
Assim como o Hospital da Tamarineira é referência para o bairro, o Hospital Agamenon Magalhães também é um dos mais importantes complexos do Sistema Único de Saúde (SUS) em Pernambuco. Situado na Estrada do Arraial, o equipamento público já foi uma instituição privada, chamada Casa de Saúde São João. Fundado em 1948, a equipe era formada por enfermeiras trazidas de países europeus após o término da Segunda Guerra Mundial e por parteiras da Universidade de Medicina do Recife. O alto custo de assistência levou o grupo privado a vender a instituição para o Instituto de Aposentadoria e Pensões dos Industriários. Mas foi somente com a reinauguração, em 1953, que o hospital recebeu o nome atual. Hoje, ele atende mais de 10 mil pacientes nas emergências e mais de sete mil no laboratório.
Após a visita detalhada ao bairro da Tamarineira, observamos que cada estrutura alocada no bairro é digna de inspiração. Passar algumas horas caminhando nos jardins do hospital e observar as pessoas que convivem com o transtorno mental passeando pelo pátio ao entardecer é, de fato, uma cena que roteiriza a vida. A vida está ali em cada miúda expressão. Também está na face dos moradores, dos visitantes e, claro, dos visitantes temporários (os pacientes). A Tamarineira nos dá um up (tradução literal: pra cima) no modo de viver. Isso porque o bairro quebra barreiras conflituosas capazes de nos aproximar do inesperado, ou seja, o outro.
Bares da Tamarineira
Ao passar no bairro da Tamarineira, é quase certo, nem que seja em um passeio ou em uma visita a algum conhecido, alguém lhe perguntar: Você já foi ao Oitão? E ao Fiteiro? Isso se dá devido à vida noturna bastante badalada do bairro ou, quem sabe, à busca por um lugar mais aconchegante para sair com a família.
Tradição é a palavra que traduz o Oitão Bar & Restaurante. Surgido em 1989, o restaurante começou a funcionar na garagem de uma casa na Tamarineira, por ideia de seus idealizadores, os irmãos Renato Xavier Barbosa e José Dias Barbosa Júnior, que na época começaram servindo eles mesmos as mesas. Até hoje é um dos mais antigos restaurantes da cidade do Recife e um dos mais concorridos.
O estudante Thiago Pereira, que costuma frequentar o restaurante, define bem o que os jovens veem buscando nos fins de semana, o point para poder interagir, conhecer gente nova ou, até mesmo, só para sair um pouco da rotina dos restaurantes costumeiros da cidade. Para Izautino Oliveira, os dois ambientes são bem agradáveis e que o pessoal se diverte bastante com as atrações.
O restaurante se destaca pela criatividade no atendimento, na forma de lidar com os clientes. Trazendo um pouco daquele clima do “Velho Recife”, o bar conquistou a clientela juntando o útil ao agradável. Servindo pratos típicos com aqueles velhos segredos dos pratos de nossas avós, o bar simplesmente conquistou o público.
Ali perto encontramos outro ponto de encontro. Com o objetivo de resgatar um clima de bodega, ambiente de fiteiro e vendas da cidade do Recife, o Fiteiro Bar traz novamente para a Zona Norte do Recife a agitação.
Criado em 2002, o bar conta com uma arquitetura única no bairro, tentando reproduzir as casas populares de periferia e morros da cidade. A simplicidade com que os elementos estão dispostos remete à cultura, onde nasce a sabedoria popularesca.
No bar, encontramos a clássica radiola, trazendo os sucessos que promovem um ambiente no mínimo diferente. A decoração, feita por molduras lembrando um pouco da cultura popular de cordel, com frases nos moldes sempre com tom bem-humorado, deixa ainda mais aconchegante o espaço.
Serviços:
Oitão Bar & Restaurante
www.oitao.com.br
Rua São Vicente, 245
Fone: 3269-3591
Fiteiro Bar
www.fiteirobar.com.br
Rua Afonso Celso, 264
Fone: 3442-4799

01 a 30/06/2012
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