por trás das cortinas
Por trás das cortinas/

Hermila Guedes

Por Raquel Freitas

Nascida em Cabrobó, no Sertão pernambucano, Hermila chegou ao Recife ainda jovem. Cursou turismo e letras, mas foi nas artes cênicas que ela se tornou grande. Aos 20 anos de idade, recebeu o prêmio de melhor atriz de curta-metragem pela sua atuação no filme O pedido, de Adelina Pontual, na 4ª edição do Festival de Cinema do Recife. Hermila viveu Elis, Suelly, Divina, Selma e muitas outras personagens. Nesse tempo, transformou-se, criou um repertório com o Coletivo Angu de Teatro, fez cinema, foi mãe e mostrou com propriedade que os espectadores pernambucanos gostam e curtem a interação promovida pelo encenar. Na instiga do representar, Hermila foi criando perfis para muitas produções pernambucanas e brasileiras. Talvez, a sua vinda para a capital tenha só reafirmado o fato de que sua contribuição foi e é fundamental para a consolidação da cena local.
1 - Pode-se dizer que você é uma atriz versátil, pelas suas atuações no cinema, no teatro e nas telenovelas. Como você avalia a importância dessa vivência na vida de uma atriz?
São experiências diferentes, mas complementares. A TV te deixa ligada, pois é um trabalho feito em escala industrial, às vezes você grava 15, 20 cenas num só dia. O cinema vai num outro ritmo, tem cena que leva um dia inteiro para ser feita. E o teatro permite a experimentação. Uma mesma frase pode ser dita de maneiras diferentes a cada apresentação. A única certeza é que ainda tenho muito o que aprender. E o barato dessa profissão é poder estar sempre experimentando.
2 - No longa o Céu de Suely você recebeu alguns prêmios, dentre eles o do Festival de Havana. Você acredita que essa experiência tenha sido um divisor de águas na sua carreira, por quê?
Claro! Quando terminei de fazer o filme, era não somente outra atriz como também outra pessoa. Acho que os prêmios são consequência de tudo isso que o trabalho provocou. Vejo o filme e lembro exatamente o que estava sentindo em cada cena. Foi um mergulho profundo, um tipo de entrega que só consegui reviver no filme Era uma vez Verônica, que estreia ainda este ano.
3 - Sua atuação no teatro antecede os trabalhos feitos para a televisão. Como você define sua participação no teatro? E qual a importância dessa escola para os jovens atores?
Eu comecei no teatro incentivada por um vizinho. Fiz belos trabalhos, como Angu de sangue e Essa febre que não passa, peças do repertório do Coletivo Angu de Teatro. É muito estimulante saber que, mesmo com o texto decorado e tudo ensaiado, cada apresentação é um recomeço. Você lida com o inesperado, é um eterno abismo. Você pisa no palco e tudo pode acontecer. Essa sensação de queda livre é o grande barato do teatro.
4 - Atualmente, acontecem muitos festivais e há certa regularidade de peças teatrais no Recife. Visto que esses eventos são uma porta de entrada para muitos atores, como você caracteriza e avalia a atual cena do Estado?
Em matéria de produção teatral, o Recife é muito rico. Mas isso vem desde os tempos do TAP, passando pelo Vivencial Diversiones, pelos trabalhos de encenadores como Antônio Cadengue e Moncho Rodriguez, até a Cinderela de Jeison Wallace, um fenômeno que saiu do teatro para a TV. É um painel amplo e rico. A programação de festivais como o Janeiro de Grandes Espetáculos é um luxo. Temos a chance de conhecer gente nova, de ver grupos importantes. Mas claro que não é fácil viver de teatro. As empresas deveriam olhar com mais carinho para a cultura. Afinal, a gente não quer só comida. A gente quer diversão e arte.
5 - Muitas das peças em que você atuou foram através do Coletivo Angu de Teatro. Como é a sua relação com o grupo e qual a contribuição dele para o teatro pernambucano?
O rigor com que Marcondes Lima e André Brasileiro dirigem o grupo já rendeu momentos inesquecíveis para a cena teatral pernambucana. A cena da minha personagem Dora, que encerra Essa febre que não passa, é tão delicada e bem construída que eu poderia passar o resto da vida fazendo. Eles são incansáveis, estão sempre instigando os atores a darem o melhor. É um grupo que tem como preocupação valorizar os autores pernambucanos. Montamos Marcelino Freire, Newton Moreno, Luce Pereira... Há um projeto em andamento que é um musical, roteirizado por Cleodon Coelho. É um passeio pela trilha dos filmes brasileiros. Vamos cantar em cena, além de reviver momentos importantes de longas que ficaram na memória. Marcondes, André e o produtor Tadeu Gondin têm aquela inquietação criativa, que nos provoca o tempo todo a procurar o melhor.
6 - Qual a diferença da Hermila do curta-metragem O pedido, um dos seus primeiros trabalhos, para a Hermila do longa Assalto ao Banco Central, um dos mais recentes no cinema (no sentido de crescimento técnico e profissional)?
Nossa, parece que estamos falando de uma outra vida. São quase 15 anos entre uma e outra. Quando fiz O pedido, nem tinha certeza se queria mesmo ser atriz. Aliás, até hoje ainda me pego pensando se é isso mesmo que eu quero fazer [risos]. Era uma menina e hoje já sou mãe. Mas os sonhos daquela menina do interior, diante de um mundo de possibilidades que se abria, ainda estão dentro de mim. No fundo, sou a mesma.

01 a 30/06/2012
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