Texto do Mês
 10/11/2008 - Cristhiano Aguiar 

Autor(a): Cristhiano Aguiar

Escritor, crítico literário e pesquisador. Formado em Letras pela UFPE, onde atualmente cursa o mestrado em Teoria da Literatura. Autor do livro de contos Ao lado do muro (Meta, 2006). Editor da revista Crispim – de crítica e criação literária. Integra as coletâneas Osman Lins de contos e Recife conta o Natal, ambas editadas pela Fundação de Cultura Cidade do Recife (2007).

Data: 10/11/2008

 

 

 

rastrodetmpointocad – Um exemplar da revista entope o bueiro:

a chuva se acumula, a lombada rasga e o miolo engelha.

As palavras nadam, feito girinos, no meio do plástico,

do chiclete, das cascas de banana, dos santinhos; ou se

espremem umas nas outras – a foto de Lima Barreto

quase beijando a de Silvio Romero.

A revista entupindo. E se perdendo: a cola desiste, solta

páginas.

Então o verde toma conta, aquele verde escuro dos

cantos das ruas; cabelos se mesclam ao verde e ao papel

– tapete de algas, de plantas, de resíduos; logo-logo a

revista é isso, não tem mais nome, não tem a si mesma,

virou um jardim anêmico.

 

Fernanda leu a revista e não gostou. Cursava o primeiro ano do ensino médio na escola. A mãe lavava pra fora, o pai era pescador.

 

Queria ser escritora e estava montando, com alguns colegas, o jornal do grêmio da escola. “Não sei, eu não conseguia... Fiquei frustrada, puta mesmo, uma mistura de raiva... Eu procurava alguma coisa que me falasse, mas não era nada daquilo”, ela confessou, 20 anos depois, à jornalista que a entrevistava. “Não entendia as citações, as metalinguagens, algumas das metáforas. Me senti uma merda, burra, fiquei imaginando os escritores todos... Fiquei achando que aquilo não era pra mim. Joguei a revista e engoli o choro. Foi aí que vi que ela ficou aberta numa foto de Lima Barreto. Então peguei um corretivo e fiz um bigode nele! Daí, decidi escrever do meu jeito, peguei um verso de um dos poemas da revista e fui completando com a caneta.

 

Em seguida, assinei.

 

Como? Foi assim mesmo.

 

Foi assim que nasci pela primeira vez”.

 

O poeta paulista em ascensão recebeu a revista pelo correio, enviada lá de Pernambuco. Folheou as páginas. Achou interessante, colocou-a na estante. Mas durante os próximos 25 anos, a revista não foi lida. 3 meses depois de recebê-la, nascia a sua segunda filha; 5 anos depois, ele ganharia um discreto prêmio literário; 10 anos depois, sua esposa pediria o divórcio; 2 dias após a revista chegar, ele escreveria um poema que só seria publicado postumamente. 63 anos depois de publicado, este poema póstumo estamparia uma capa de revista: “a poesia voltou”; 89 anos depois de publicado, este poema seria o mote de uma facção criminosa; 100 anos depois, o poeta retornaria dos mortos numa explosão de hosanas.

 

Mas a revista pouco se moveu. Mudou de lugar duas ou três vezes, amarelou, criou manchas, perdeu a saúde da cor.

 

Os herdeiros venderam a biblioteca por metro.

 

Festa de lançamento: espuma. Editores e escritores autografavam exemplares da revista. Julie escutava a conversa de dois escritores, que acabavam de autografar um exemplar para uma adolescente chamada Fernanda: “fui pro meio do Marco Zero e fiquei rodando até perder o fôlego, tonto; então a cidade virou um círculo de manchas, eu tinha me misturado”; “foi por isso que você escreveu esse verso aqui?”; “Sim. Há dois extremos, que se atam no fim, feito uma serpente engolindo a própria cauda. Mas o resto é água misturada. Sem meio, sem margem”.

 

“Pra que literatura?”, Julie se perguntou.

 

Chacais sugando tutano; vácuo chutando fora moléculas de ar; relâmpago levantado do chão – Julie devastada, pés descalços na pergunta.

 

Sua revista literária estava quase pronta. À sua volta, os potes de cola e os montes de papel impresso e de capas cartonadas.

 

“Pode começar a montar, doutora?”

 

Tantos anos de espera até chegar ali. Agora, ela sentia medo, um tanto de culpa e uma sede por nomes que pudessem dar direcionamento aos caminhos em ruínas.

 

“Pode”, respondeu Julie-dançarina.

 

 

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