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O que se tem produzido de novo e interessante no teatro pernambucano?*
Acredito que o teatro pernambucano vive uma situação não muito diferente do restante do país, ou seja, há muita dificuldade para se produzir teatro de qualidade. Isto ocorre não por falta de talento, mas de condições para a criação. O teatro é uma expressão que precisa de tempo, de pesquisa, de muita leitura, de maturidade. Alguns autores e encenadores locais vêm buscando, com muito esforço, darem forma a projetos consistentes a exemplo de um Newton Moreno (Assombrações do Recife Antigo), de um João Denys (Deus Danado), Luís Reis (com seu belo texto premiado A Filha do Teatro montado por Antonio Cadengue) e atores que têm se revelado excepcionais como Marilena Breda e Paulo Pontes.
É possível falar de uma organização na cena dramática em dias de hoje em Pernambuco?
Olha num certo sentido sim, a exemplo do que podemos verificar de maneira concreta no Janeiro dos Grandes Espetáculos e no Festival Nacional de Teatro do Recife, espaços importantes para conhecimento e reflexão da produção contemporânea. Contudo, para que o teatro volte a ocupar um espaço de destaque na cena cultural é preciso iniciativas mais arrojadas, estímulo a novos artistas, criação de cursos, fomento de projetos cênicos consistentes e não simplesmente distribuição pontual de verbas para montagens.
Que tipo de relação é possível estabelecer entre o teatro realizado atualmente em Pernambuco e a cultura pernambucana? Como, por exemplo, a produção cômica realizada nos anos 1990 e início dos anos 2000.
Embora, particularmente, eu não sinta muita afinidade com a produção cômica dos anos 90, reconheço sua importância por ter mantido a cena local em atividade e o interesse pelo teatro de uma determinada faixa de público. Contudo, é uma fórmula fácil e que se desgasta rapidamente, não contribuindo efetivamente para o desenvolvimento de uma estética ou de um movimento teatral forte. O objetivo deste tipo de de teatro é apenas a bilheteria e para se conseguir isto a qualquer custo faz-se apelo a modelos ultrapassados ou arremedos do que existe de mais trivial na dramaturgia de outros meios como a televisão. Algo, portanto, muito distinto de outros momentos da produção teatral pernambucana quando o TAP, o TPN só para citar dois importantes grupos locais, forma mais que um conjunto de pessoas no palco; foram projetos cênicos consistentes, que influenciaram a criação teatral e deixaram marcas profundas na vida cultural não só do Recife, mas do Brasil.
Qual a relação entre as idéias teatrais dos principais nomes do teatro do século passado, como os fundadores do TEP e do fundador do TAP, e o teatro contemporâneo?
Acho que cada momento histórico tem um contexto muito particular. Não podemos exigir da cena atual a mesma mobilização de idéias dos grupos citados. Contudo, podemos traçar uma relação que não desapareceu com o tempo que é o amor profundo por uma forma de expressão capaz de revelar as emoções mais profundas de um povo. O teatro, nesses dias de supervalorização de uma arte descartável e da superficialidade dos gestos e palavras, permanece como o espaço simbólico mais intenso de nossas almas. É preciso saber ouvi-lo e vê-lo para sentir o quanto ele ainda pode nos mostrar do que somos capazes.
Quais as contribuições do teatro pernambucano para a formação de uma cidadania pernambucana? O teatro, a exemplo da agitação dramática do século XIX, ainda pode cumprir esse papel, ou ele foi suplantado por outros campos artísticos e pelos mass media?
Evidente que os mass media ocupam hoje um lugar privilegiado na sociedade contemporânea e por isso parecem estar presentes em todas as ações sociais e políticas. Mas, o teatro feito nas cidades do interior, nos bairros, os grupos de teatro de rua podem contribuir para esta intenção de formação da cidadania. Porém, a meu ver isto é muito pouco, é preciso restaurar hábitos de confrontação com o teatro em todas as instâncias, é preciso acabar com os abismos entre cultura popular e cultura erudita. O que hoje é erudito, já foi popular. Então é preciso Shakespeare, Lorca, Osman Lins, Wilde, Luiz Marinho, Brecht, Ariano para todos.
* Entrevista concedida a Frederico Machado. |