CURADORIA

 

9° Festival Recife do Teatro Nacional -

Dramaturgia e Pós-Dramaturgia: Modernidade e Palavra

 

A Modernidade significou para a Palavra um deslocamento. Assim como a Razão foi destituída de seu protagonismo, a Palavra também viu muitas de suas funções serem repartidas e seu papel central questionado.

 

Hoje a Dramaturgia, isto é, a tradição que partindo dos gregos, alcança os picos de Shakespeare, Tchekov e Beckett e desemboca em Nelson Rodrigues (nosso homenageado nesta edição), vai muito bem. E convive com diversas outras formas de se fundar e organizar a cena que, negando centralidade à palavra, nem por isso abrem mão da expressão dramaturgia. São, de certa forma, pós-dramaturgias.

 

A programação deste ano apresenta uma gama variadíssima de opções à dramaturgia tradicional. Do Teatro Essencial de Denise Stocklos ao melhor exemplo de material literário potencializado em cena (Utopia, de Thomas More, na versão de Moacir Chaves e Mire Veja, da Cia. do Feijão), da inclassificável aventura pelo real de A Falta que nos Move à união entre os gregos e as chamadas vanguardas do início do século (Cosmogonia). Isso sem descurar da dramaturgia que realiza a tradição, sem deixar de ser absolutamente contemporânea – As Criadas de Genet, A Vida na Praça Roosevelt de uma das mais importantes autoras européias, Dea Loher e nosso próprio homenageado Nelson Rodrigues.

 

Nos eventos especiais, teremos a oportunidade de refletir com profundidade sobre a contribuição dessas dramaturgias para as discussões de nosso tempo. O seminário Nelson Rodrigues e a Cultura Brasileira tem sua curadoria assinada conjuntamente por Antonio Cadengue e por mim.  Convidamos intelectuais e artistas de diversas áreas para, a partir de uma determinada peça de nosso maior autor, discutir as questões mais diversas: teatro, dramaturgia, crítica, história, ética, Brasil. Serão 17 falas, uma para cada peça do homenageado.

 

O Festival de Recife comprova, a cada ano, sua vocação para local privilegiado para se discutir e ver o melhor teatro feito no País. Aproveitando o que a Palavra e a Modernidade têm de melhor para oferecer. Mas sabendo se aventurar para além delas.

 

Aimar Labaki - Dramaturgo e Curador do 9º Festival Recife do Teatro Nacional

 


Aimar Labaki