ARTISTA HOMENAGEADO

 

Nelson Rodrigues: uma “Flor de obsessão” que nasceu em Recife - Breves recortes, por Lúcia Machado

 

“De vez em quando, alguém me chama de “flor de obsessão”. Não protesto e explico: - não faço nenhum mistério dos meus defeitos. Eu os tenho e os prezo. Sou um obsessivo. E aliás, que seria de mim, que seria de nós, se não fossem três ou quatro idéias fixas? Repito: - não há santo, herói, gênio ou pulha sem idéias fixas. Só os imbecis não as têm.”

 

Nelson Rodrigues – Recife, 1912 Rio de Janeiro, 1980

 

A infância. O primeiro texto

 

Ao longo de sua trajetória artística, Nelson Rodrigues é alvo de uma polêmica que o faz conhecer tanto o sucesso absoluto, como em Vestido de Noiva, 1943, cuja encenação por Ziembinski marca o surgimento do teatro moderno no Brasil, quanto o total repúdio, como em Anjo Negro, 1948, ousada montagem para a época pelo Teatro Popular de Arte.

Nelson, “(...) o renovador da dramaturgia brasileira moderna ou, se se quiser o maior autor teatral brasileiro de todos os tempos, o dramaturgo que deu dimensão universal à nossa literatura dramática. Há um teatro no Brasil antes e outro depois de Nelson Rodrigues. (...) Nelson conferiu aos seus textos uma dimensão enciclopédica. Nenhuma outra obra, em nosso teatro, alcançou tamanha abrangência e originalidade. A dramaturgia alçou-se, com Nelson, à altura das demais artes brasileiras, renovadas a partir da Semana de Arte Moderna de 1922”.

 

Nelson Rodrigues nasceu da cidade do Recife - PE, em 23 de agosto de 1912, quinto filho, dos catorze, do casal Maria Esther Falcão e o jornalista Mário Rodrigues. Os nascidos no Recife, além de Nelson, foram Milton, Roberto, Mário Filho, Stella e Joffre. No Rio de Janeiro, nasceram os outros oito: Maria Clara, Augustinho, Irene, Paulo, Helena, Dorinha, Elsinha e Dulcinha.

 

Seu pai, deputado e jornalista do Jornal do Recife, por problemas políticos, resolve mudar-se para o Rio de Janeiro, onde vem a  trabalhar como redator parlamentar do jornal Correio da Manhã. Em julho de 1916, Dona Maria Esther e filhos chegam ao Rio de Janeiro num vapor do Lloyd. Treze anos depois, Nelson voltaria a Recife.

 

Haviam vendido tudo no Recife para cobrir as despesas de viagem, tendo que ficar hospedados na casa de Olegário Mariano por algum tempo. Em agosto de 1916, alugaram uma casa na Aldeia Campista, bairro da Zona Norte da cidade, na rua Alegre, 135, onde a família Rodrigues teve seu primeiro teto na cidade.

 

Nelson ia sendo criado dentro do clima da época: as vizinhas gordas na janela, fiscalizando os outros moradores, solteironas ressentidas, viúvas tristes, com as pernas amarradas com gazes por causa das varizes. Naquela época, os nascimentos eram assistidos por parteiras de confiança e eram feitos em casa, assim como os velórios. Nelson registrava em sua memória esse cenário. Daí, sairiam os personagens de sua obra literária.

 

Aos sete anos, em 1919, pediu à sua mãe para ir à escola.  Foi matriculado na escola pública Prudente de Morais, a dois quarteirões de sua casa.  Aprendeu a ler rapidamente e era por isso elogiado por sua professora.

 

 

Em 1920, ocorreu um fato que, depois, transformou-se num dos favoritos do escritor: o do concurso de redação na classe. Dona Amália passou a lição: cada aluno deveria escrever sobre um tema livre. A melhor redação seria lida em voz alta na classe. Finda a aula, as redações foram entregues. A professora quase desmaiou com o texto de Nelson: era uma história de adultério. O marido chega em casa, entra no quarto, vê a mulher nua na cama e o vulto de um homem pulando pela janela e sumindo na madrugada. O marido pega uma faca e liqüida a mulher. Depois, ajoelha-se e pede perdão. Mesmo causando tanto espanto em todo o corpo docente, o trabalho não tinha como não ser premiado. Mas não podia ser lido na classe. A professora usou de um artifício – um empate – e leu a outra redação.

 

Nesse período, influenciado por seus irmãos mais velhos, passou a ter a leitura como passatempo, saindo rapidamente do Tico Tico para romances mais "pesados" como Rocambole, de Ponson du Terrail, Epopéia de Amor, Os Amantes de Veneza e Os Amores de Nanico, de Michel Zevaco, O Conde de Monte Cristo e as Memórias de um Médico, de Alexandre Dumas, os fascículos de Elzira, a Morta-Virgem, de Hugo de América, e outros mais.

 

A carreira jornalística

 

Nelson inicia sua carreira jornalística em 29 de dezembro de 1925, como repórter de polícia, no jornal A Manhã ganhando “trinta mil réis por mês”. Tinha treze anos e meio: era alto, magro e seus cabelos eram indomáveis. Embora fosse filho do patrão, teve que comprar calças compridas para impor respeito aos colegas de redação.

 

O indomável escritor cria um tablóide de quatro páginas intitulado Alma Infantil,nascido da troca de cartas com seu primo Augusto Rodrigues Filho, que não conhecia pessoalmente e que morava no Recife. Ele queria ser como seu pai, um “espadachim verbal”. Depois de cinco números e muitos ataques a políticos pernambucanos e a cariocas, Nelson desiste do tablóide.

 

Tendo garantido uma coluna assinada na página principal do Jornal, publica seu primeiro artigo, em 07 de fevereiro de 1928: "A tragédia de pedra...", já com as famosas reticências. Depois, seguiram-se "Gritos Bárbaros", "O elogio do silêncio", "A felicidade", e "Palavras ao mar", todos denotando grande sensibilidade poética. Seu lado sombrio só apareceu na crônica de 16 de março, "O rato...", em que ele narra como viu um rato morto, achatado por um carro, defronte à Biblioteca Nacional. Para desespero de seu pai, começa a criticar Rui Barbosa. Foi rebaixado, retornando à seção de polícia, onde trabalhou nos cinco meses seguintes.



Nelson Rodrigues